Olhar Fotográfico, um dos elementos mais importantes da fotografia

por | fev 21, 2020 | Dicas de Fotografia, Fotografia

Fotografias há de dois tipos. As mais raras são obras de arte, belezas que o olho do fotógrafo percebeu e nos mostra. Olhamos a fotografia e ficamos espantados: não havíamos visto a beleza que estava lá. Não é a boa câmera que faz a fotografia. É o olho do fotógrafo. As outras são aquelas de grandes cenários em que pessoas sorridentes aparecem fazendo gracinhas. Banalidade pura”. – Rubem Alves

INTRODUÇÃO

O homem, ao longo da sua existência, sempre tentou reproduzir tudo o que via em imagens para serem compartilhadas. Por séculos, foi dever do artista, escolher temas e registrá-los usando carvão, tinta e outros materiais disponíveis na época. Porém, no ano de 1826, surgiu uma nova forma de expressão e, em muitos aspectos, mais instantâneo: a fotografia.

Os pintores românticos, conhecidos por suas obras altamente detalhadas, quando souberam da primeira fotografia, disseram: “A partir de hoje, a pintura está morta!”.

No começo, o processo se mostrava complexo e demorado, mas, em decorrência da sua evolução, se tornou um modo de capturar o mundo, literalmente, em apenas um piscar de olhos.

A pintura em miniatura foi trocada pelos daguerreótipos que ficavam prontos em 15 minutos e custavam 12 centavos. Os pintores, assustados, disseram: “Odiamos fotografia”.

Outros artistas viram a fotografia como ferramenta auxiliar, como estudo de retratos e poses, por exemplo. Outros, não aceitavam a fotografia como arte. Mas, três gerações depois da invenção da fotografia, os pintores abandonaram a pintura realista e passaram para a abstração.

Gradualmente, os fotógrafos começaram a insistir que a fotografia era mais que “tirar” retratos ou servir de estudo para a pintura. Era, na verdade, uma obra de arte. Os fotógrafos produziam imagens realistas, mas passaram a querer imitar a pintura.

Buscando a fotografia artística, começaram a produzir imagens desfocadas, retocar negativos, acrescentar tinta às fotografias impressas, sobrepor negativos e, de outras maneiras, passaram a manipular as imagens produzidas. Assim, nasceu uma nova forma de arte.

FOTOGRAFIA COMO ARTE

A fotografia como arte é diferente do simples registro fotográfico e da fotografia comercial.

Em uma época em que inúmeras fotografias são produzidas todos os dias, algumas pessoas conseguem desenvolver uma habilidade especial para imortalizar em suas fotografias o cotidiano da sociedade, a sua visão de mundo ou as maravilhas da natureza, por exemplo.

Estes fotógrafos são considerados cronistas que, com as suas lentes, revelam o mundo através das cenas registradas. Seja com rebeldia, raiva, amor, discrição, sensibilidade, brutalidade ou ternura, não importa, eles tem como testemunha o seu olhar e o tempo vivido. Eles contam histórias através de suas fotografias.

Não se pode afirmar que o trabalho de um fotógrafo artista seja apenas “TIRAR FOTOS”, pois se trata de uma expressão pejorativa e incorreta de se usar.

Isto porque um bom fotógrafo “PRODUZ UMA FOTOGRAFIA” e não apenas a “TIRA”, pois o seu clique carrega toda a sua experiência de vida e visão de mundo.

O que se entende a esse respeito, é que as pessoas que buscam, de alguma forma, com pincel ou câmera, produzir imagens impactantes, autênticas, gratificantes ou atraentes, acabam não se contentando com o óbvio e anseiam em transpor as barreiras do convencional.

Mas para isso, é importante estar atento aos momentos fugidios, detalhes, verdades passageiras, nuances imperceptíveis do cotidiano. Desta forma, as fotografias produzidas se tornam inesquecíveis.

Esta atitude requer o desenvolvimento de um olhar diferente. O Olhar Fotográfico. E isso significa estar aberto a experimentar novas perspectivas e, principalmente, ter ideias inovadoras e estar disposto a desenvolver imagens únicas.

Se expressar através da fotografia tem de ser algo pessoal e a maior meta é o compromisso com a autoexpressão.

O QUE É OLHAR FOTOGRÁFICO?

É expressar, através de imagens, como você vê e sente o mundo que lhe cerca. Ter um ‘bom olho’ para fotografia é uma forma de enxergar e fotografar as coisas de forma única e artística. É ter uma visão criativa.

A FORMAÇÃO DO OLHAR FOTOGRÁFICO

A formação do olhar começa a partir do momento em que se começa a enxergar e passa por momentos imperceptíveis.

O mundo em volta é observado, interpretado e classificado o tempo todo sem que isso seja percebido. Tal fato irá depender da família, educadores, sociedade, contato com o mundo e com a arte.

É um processo de aprendizagem que acontece por meio da interação com o outro, de maneira subjetiva, por isso, não pode ser ensinado.

Nesse contexto, a imaginação e o conhecimento acerca de si se tornam elementos fundamentais para aqueles que desejam aguçar o olhar.

No caso dos artistas, eles alimentam a imaginação buscando aprender mais sobre si, sobre o mundo, culturas e arte. A partir das suas descobertas trabalham com ideias e produzem a arte.

Aquele que deseja se expressar por meio da fotografia precisa de referências e, neste sentido, apreciar trabalhos de outros artistas é essencial.

O regulador desses procedimentos é a atenção: o interesse pelo olhar e por apreender o percebido. A partir disso, nota-se a importância de visitas regulares a museus e galerias de arte.

Há diversas formas possíveis de se deslocar ao museu, ao centro cultural ou acessar sites e blogs de artistas. A repetição dessa experiência irá realizar a descoberta de um mundo de conhecimento.

O importante é avaliar seus preconceitos e identificar que o ser humano não tem o hábito de ler, ouvir e ver determinadas coisas. Caso se tenha percepção de tais deficiências, é possível que novos horizontes sejam abertos.

O OLHAR ADULTO – UM TEXTO PARA INSPIRAR E REFLETIR

Por Rubem Alves

Lá vão pelo caminho a mãe e a criança, que vai sendo arrastada pelo braço – segurar pelo braço é mais eficiente que segurar pela mão. Vão os dois pelo mesmo caminho, mas não vão pelo mesmo caminho. Bleke dizia que a árvore que o tolo vê não é a mesma árvore que o sábio vê. Pois eu digo que o caminho porque anda a mãe não é o mesmo caminho porque anda a criança.

Os olhos da criança vão como borboletas, pulando de coisa em coisa, para cima, para baixo, para os lados, é uma casca de cigarra num tronco de árvore, quer parar para pegar, a mãe lhe dá um puxão, a criança continua, logo adiante vê o curiosíssimo espetáculo de dois cachorros num estranho brinquedo, um cavalgando o outro, quer que a mãe também veja, com certeza ela vai achar divertido, mas ela, ao invés de rir, fica brava e dá um puxão mais forte, aí a criança vê uma mosca azul flutuando inexplicavelmente pelo ar, que coisa mais estranha, que cor mais bonita, tenta pegar a mosca, mas ela foge, seus olhos batem então numa amêndoa no chão e a criança vira jogador de futebol, vai chutando a amêndoa, depois é uma vagem seca de flamboyant pedindo para ser chacoalhada, assim vai a criança, à procura dos que moram em todos os caminhos, que divertido é andar, pena que a mãe não saiba andar por não ter os olhos que saibam brincar, ela tem muita pressa, é preciso chegar, há coisas urgentes a fazer, seu pensamento está nas obrigações de dona de casa, por isso vai dando safanões nervosos na criança, se ela conseguisse ver e brincar com os brinquedos que moram no caminho, ela não precisaria fazer análise.

A mãe caminha com passos resolutos, adultos, de quem sabe o que quer, olhando para a frente e para o chão. Olhando para o chão ela procura as pedras no meio do caminho, não por amor ao Drummond, mas para não dar topadas, e procura também as poças d’agua, não porque tenha se comovido com o lindo desenho do Escher de nome Poça d´água, uma poça de água suja na qual se refletem o céu azul e os ramos verdes dos pinheiros, ela procura as poças para não sujar o sapato. A pedra do Drummond e a poça de água suja do Escher os adultos não vêem, só as crianças e os artistas.

A mãe não nasceu assim. Pequenina, seus olhos eram iguais aos do filho que ela arrasta agora. Eram olhos vagabundos, brincalhões, que olhavam as coisas para brincar com elas. As coisas vistas são gostosas, para ser brincadas. E é por isso que os nenezinhos têm esse estranho costume de botar na boca tudo o que vêem, dizendo que tudo é gostoso, tudo é para ser comido, tudo é para ser colocado dentro do corpo. O que os olhos desejam, realmente, é comer o que vêem. Assim dizia Neruda, que confessava ser capaz de comer as montanhas e beber os mares. Os olhos nascem brincalhões e vagabundos – vêem pelo puro prazer de ver, coisas que, vez por outra, aparece ainda nos adultos no prazer de ver figuras. Mas aí a mãe foi sendo educada, numa caminhada igual a essa, sua mãe também a arrastava pelo braço, e quando ela tropeçava numa pedra ou pisava numa poça de água, porque seus olhos estavam vagabundeando por moscas azuis e cachorros sem-vergonha, sua mãe lhe dava um safanão e dizia: “Olha pra frente menina!”.

“Olha pra frente!” Assim são os olhos adultos.

Coitados dos adultos! Arrancaram os olhos vagabundos e brincalhões de crianças e os substituíram por olhos ferramentas de trabalho. Os olhos tornam-se escravos do dever. Os olhos solicitam: “Brinquem comigo! É tão divertido! Se vocês brincarem comigo, eu ficarei feliz, e vocês ficarão felizes.

10 DICAS PARA LHE AJUDAR A DESENVOLVER O SEU OLHAR FOTOGRÁFICO

Fotografar não se resume a ter a maior e melhor câmera. Claro que bons equipamentos podem lhe ajudar a melhorar a sua fotografia, mas o mais importante é o desenvolvimento do seu olhar fotográfico.

A maneira como você vê o mundo mudará a maneira como você produz suas fotografias.

O olhar fotográfico é uma ferramenta em constante desenvolvimento, portanto é algo que você pode exercitar e aprimorar com o tempo.

Através da mudança e introdução de pequenos hábitos você pode exercitar ainda mais o seu olhar fotográfico.

DICA 01

Você pode começar sem uma câmera… basta olhar para uma cena e imaginar como ela poderia ser capturada. Como você registraria essa cena? Você enquadraria a cena inteira ou chegaria mais perto do seu motivo fotográfico?

DICA 02

Seja uma praia, a rua de uma cidade ou o Carnaval, tente mudar a maneira como você registra o seu assunto fotográfico. Não fotografe sempre na altura dos olhos, procure por detalhes, linhas, texturas ou objetos em movimento que possam melhorar a sua fotografia.

DICA 03

No café da manhã, organize seu prato, café, talheres e alimentos da maneira que você achar melhor. Pense na iluminação, enquadramento, composição, cor. Repita isso novamente por uma semana para lhe incentivar a enxergar o seu café da manhã de maneira diferente todos os dias.

DICA 04

Dê um passeio pela sua cidade (sem câmera) e busque por oportunidades fotográficas. A capacidade de produzir uma boa foto começa antes de você pegar sua câmera para fotografar. Você precisa enxergar a oportunidade fotográfica antes do clique.

DICA 05

Vá para um local aberto (praia, parque, campo de futebol) e obtenha linhas que melhorem a perspectiva. Existem linhas naturais como uma fileira de árvores, uma linha da maré na areia da praia ou linhas artificiais como calhas, ruas, luminárias? Depois de encontrar um efeito linear, imagine como você o fotografaria. Você enquadrou sua fotografia para que a linha saia dos cantos do quadro ou apenas centralizou a imagem? Efeitos lineares são ótimos para incluir em suas imagens e adicionar perspectiva e direcionar o olhar do espectador.

DICA 06

Procure a luz. Embora a iluminação dependa do seu estilo de fotografia, uma luz bonita pode fazer toda a diferença. Pratique durante a Golden Hour.

DICA 07

Leve a sua câmera para um local familiar que você visita regularmente. Pode ser seu trabalho, o supermercado, o parque. Registre esse local sem pensar muito. Depois, escolha uma fotografia feita no local e passe cinco minutos olhando para ela e avalie o que poderia ser feito para tornar essa foto mais criativa. Onde você parou para fazer essa foto foi um local bom? Você conseguiria um ângulo diferente?

Você ficará surpreso com as possibilidades fotográficas que surgirão quando começar a pensar na composição de suas fotografias.

DICA 08

Escolha um amigo ou um membro da família e peça para que seja seu modelo por 30 minutos. Faça dez fotos, cada uma com uma composição diferente.

Um retrato não precisa se resumir em desfoque de fundo e centralização do modelo, as possibilidades são infinitas. Portanto, revise suas imagens e procure novamente por melhorias ou desenvolva novas ideias para a sua próxima tentativa.

DICA 09

Selecione um objeto simples, como uma garrafa de água, e fotografe em uma mesa vazia tendo como fundo uma parede branca. Esse exercício vai lhe incentivar a enxergar o objeto de uma forma diferente, além de uma simples garrafa de água. Você consegue encontrar alguma luz brilhando na garrafa? Você pode focar apenas no topo da garrafa e fotografar para baixo ou enquadrá-la usando a borda da mesa como uma névoa embaçada em primeiro plano.

DICA 10

Avalie as suas últimas fotos de férias. Seja seu próprio crítico de arte e escreva em um caderno maneiras de melhorar cada fotografia. Cada foto sempre pode ser melhorada ou feita de outra maneira.

DICA 11

Passe um dia com sua câmera vagando sem rumo pela cidade que costuma fotografar ou por uma cidade desconhecida. Tente capturar cenas da maneira mais criativa possível… seja uma vitrine, um carro estacionado ou uma passagem para pedestres, procure fotografar como você nunca fotografou antes.

DICA 12

Planeje uma sessão de fotos ou seu próximo final de semana com base na ideia de uma foto. Imaginar uma cena e depois tentar recriar a realidade é uma ótima maneira de aguçar o seu olhar fotográfico.

Seguindo essas doze dicas, você vai conseguir notar o seu olhar fotográfico se desenvolvendo e vai conseguir melhorar suas fotos drasticamente.

Use a hashtag #semanadafotografiacriativa no Instagram para que possamos dar uma olhada em seu trabalho e ver como você progrediu! Você também pode se juntar ao nosso grupo privado no Facebook Semana da Fotografia Criativa – O Casal da Foto, onde você pode compartilhar suas imagens, fazer perguntas e obter feedback ou conselhos de outros amantes da fotografia.

Se você tiver alguma dúvida, também ficaremos felizes em respondê-las… comente abaixo. Boas fotos!

Referências:

  • Arte Comentada – da Pré-história ao Pós-moderno – Carol Strickland
  • The Photographer’s Eye: Composition and Design for Better Digital Photos – Michael Freeman
  • 10 dicas para melhorar suas habilidades fotográficas – Steve Rutherford

1 Comentário

  1. Maria Solange

    Olá! Amei todas as dicas. Vou copiar e ler mais algumas vezes e é claro, executar-las. Muito obrigada.

    Responder

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O Casal

O Casal

Ela é de Brasília. Ele, de Belo Horizonte. Ela tem formação artística baseada em pintura e literatura. Ele já foi criado na música e no cinema. Ela gosta de MPB. Ele gosta de Jazz. Mas foi na fotografia que ambos se encontraram.

Especialistas em docência fotográfica, colecionam 14 anos de experiência em ensino artístico. Juntos são O Casal da Foto, uma dupla inseparável, ávidos por ensinar tudo o que aprenderam ao longo de suas carreiras e transformar a forma de se lecionar e aprender fotografia.