Como os Movimentos Artísticos se encaixam na História da Arte

por | | , ,

INTRODUÇÃO

Os fotógrafos iniciantes (especialmente aqueles fotógrafos que iniciaram na ‘era digital’) costumam confiar na sorte, no volume (quantidade de fotos tiradas) e nas correções de pós-produção feitas para obter boas fotos.

Mas uma educação em história da arte é realmente muito importante para a produção de fotografias únicas, pois treina a mente para ser elástica em todos os aspectos que envolvem a fotografia (iluminação, motivo fotográfico, plano de fundo, DoF, etc.). Isso ocorre porque passar muito tempo olhando para as diferentes maneiras como outras pessoas lidam com esses mesmos assuntos aumenta a consciência que temos sobre eles em nosso trabalho fotográfico, e ter uma biblioteca de técnicas para nos inspirar muitas vezes fortalece a nossa fotografia.

E é por isso que hoje queremos bater um papo com você sobre os movimentos e períodos da história da arte. Quais são os movimentos artísticos e como eles se entrelaçam? Existe uma linha do tempo da história da arte que realmente precisa ser seguida? Precisamos estudar história da arte seguindo uma linha? Quem delimita/delimitou a história da arte? Existe mais história dentro da história? Vamos conversar sobre isso?

O QUE É A HISTÓRIA DA ARTE: UMA CORRIDA DE REVEZAMENTO

Quando começamos a aprender sobre história da arte, queremos entender todos os movimentos de uma só vez. Queremos entender como os movimentos mudaram de um para o outro na linha do tempo da História da Arte. Em outras palavras, queremos compreender a história da arte seguindo uma ordem, como por exemplo: Romantismo, Impressionismo, Pós-Impressionismo, Cubismo e assim por diante.

Temos a sensação de que a história da arte é como uma corrida de revezamento de artistas, cada um passando o bastão para o outro, construindo uma cadeia de causa e efeito de história e desenvolvimento.

Além de querer saber sobre os “ismos”, surgem outras perguntas como: o que é “Barroco”? A arte barroca veio antes ou depois do Renascimento? Na verdade, pensando bem, o que foi a Renascença? “Clássico” se refere à música clássica ou é algo completamente diferente? Qual é a diferença entre “arte moderna” e “arte contemporânea”?

Demoramos um pouco para entender que existem respostas simples e complexas para essas perguntas. Mas a primeira coisa que devemos fazer, para satisfazer a nossa curiosidade, é encontrar uma lista de movimentos artísticos e escrevê-la de forma a fixá-la em nossa memória. Se criarmos uma linha do tempo da história da arte, ela aconteceu mais ou menos assim:

Linha do Tempo da História da Arte

  • Pré-Histórica
  • Egípcia
  • Arte Grega/Romana
  • Arte Medieval
  • Renascença
  • Maneirismo
  • Barroco
  • Rococó
  • Romantismo
  • Modernismo
    • Impressionismo
    • Expressionismo
    • Cubismo
    • Futurismo
    • Art Déco
    • Surrealismo
    • Abstratismo
  • Arte Contemporânea

Aqui está uma boa lista dos movimentos artísticos em formato de linha do tempo.

Uma estrutura simples como essa é indispensável para se orientar no início dos estudos. Depois de muitos anos procurando e pensando sobre arte, muitas vezes ainda precisamos dessa lista.

E ENTÃO, POR ONDE DEVO REALMENTE COMEÇAR A ESTUDAR HISTÓRIA DA ARTE?

A verdade é que ninguém começa a pensar sobre a história da arte sem antes ter encontrado alguma arte. Talvez tenha sido a partir de uma pintura gota a gota de Jackson Pollock. Talvez tenha sido a partir de uma visita à Capela Sistina em Roma. Talvez tenha sido com um pintor de rua. Talvez alguém lhe tenha dado um cartão postal com uma pintura de Claude Monet… cada um teve uma experiência inicial com a arte!

historia da arte Bordighera, Italy (1884) by Claude Monet.Bordighera, Italy (1884) by Claude Monet. Source WikiArt

Após o contato com a arte, de alguma forma, em algum lugar ai dentro de você, um interesse foi despertado! Nós defendemos isso porque todos nós chegamos à história da arte a partir de um ponto de partida, e é com base nesse ponto de partida que provavelmente construiremos nosso mapa mental de como diferentes estilos de arte e, em última análise, artistas individuais se encaixam.

É também através dessa primeira impressão que os preconceitos são capazes de penetrar em nosso entendimento, mesmo que não seja essa a intenção. Mas não vamos nos preocupar com isso por enquanto…

Para nós, nosso interesse foi despertado um dia quando, aos 16 anos (sim, nos conhecemos aos 16 anos!) nosso professor de arte na escola nos chamou e nos perguntou se já tínhamos ouvido falar em arte contemporânea. Nós nunca tínhamos ouvido falar. Ele nos pediu para pesquisarmos sobre o assunto.

Seguimos o seu conselho e fomos à biblioteca da escola, onde encontramos um livro dedicado à história da arte. Nunca tínhamos visto nada parecido. Nos apaixonamos por Kandinsky. Kandinsky era um russo que passou grande parte de sua vida adulta na Alemanha, onde lecionou na Escola de Arte Bauhaus. Como pintor, ele é creditado por ter feito algumas das primeiras obras puramente abstratas da arte ocidental.Para compartilhar aqui, escolhemos uma obra chamada Amarelo-Vermelho-Azul que Kandinsky pintou em 1925.

historia da arte Yellow Red Blue (1925) Wassily Kandinsky
Yellow Red Blue (1925) by Wassily Kandinsky, 127 x 200 cm, Musée National d’Art Moderne, Centre Georges Pompidou, Paris, France. Source Wikimedia Commons

Quando olhamos pela primeira vez para esta pintura, gostamos especialmente da grande fita preta que desce pelo lado direito, como um rio ou um caminho entre o topo de uma colina. Também gostamos da forma como os diferentes tons de cores se sobrepõem, se cruzando e se combinando para formar novas formas por baixo. Nós realmente não tínhamos ideia do que o trabalho “significava”. Nós simplesmente gostamos de ver a explosão de cores e formas aparecendo e desaparecendo com um estranho drama teatral.

PRÓXIMOS PASSOS – APRENDENDO SOBRE UM ARTISTA E SUA TRAJETÓRIA DENTRO DA HISTÓRIA DA ARTE

Se quiséssemos colocar Kandinsky na linha do tempo dos movimentos artísticos listados acima, ele estaria dentro do movimento conhecido como Expressionismo (por volta de 1905-1930).

O expressionismo teve origem na Alemanha no início do século 20, principalmente por meio da poesia e da pintura. Artistas como Kandinsky empregavam formas distorcidas e cores fortes para evocar estados de espírito ou ansiedades. Para Kandinsky, a subjetividade da arte tinha uma qualidade espiritual. As cores têm o poder de afetar as respostas emocionais profundas do espectador. A pintura, escreveu ele, “pode desenvolver as mesmas energias da música”.

Portanto, podemos colocar Kandinsky confortavelmente no movimento do expressionismo. Fazer isso nos leva tão longe, mas, ao categorizar Kandinsky, também corremos o risco de ocultar algumas verdades importantes. Por exemplo, o fato de ter sido um artista vanguardista, em que o seu trabalho assumiu diferentes formas à medida que se associava a diferentes artistas em diferentes cidades europeias. Além disso, o Expressionismo em si é um termo abrangente que abraça muitos artistas diferentes com estilos diferentes, alguns abstratos e outros figurativos.

Abordamos aqui esse ponto para ilustrar o fato de que a arte é feita em meio a circunstâncias reais e que as generalizações só são úteis até certo ponto.

Portanto, um próximo passo útil para um historiador da arte ao examinar uma obra de arte é começar a construir um senso de tempo e lugar específico para a obra de arte e o artista em questão. Existem várias maneiras de fazer isso. Por exemplo, pode-se começar pensando nas seguintes questões:

  • O artista tinha amigos ou contemporâneos que possam ter influenciado o estilo da obra?
  • O artista tinha professor ou vinha de uma tradição artística?
  • O artista escreveu sobre seu próprio trabalho?
  • Quais eram os materiais disponíveis para o artista na época?
  • O artista era homem ou mulher, e a resposta poderia ter relação com o tipo de arte que eles poderiam criar?
  • Pode a raça ou outras especificidades da identidade do artista desempenhar um papel importante?

A obra de arte foi exibida em público e, em caso afirmativo, quais foram as reações dos primeiros espectadores?

Essas questões não são de forma alguma exaustivas, mas talvez apontem para a realidade de qualquer processo criativo: que todos os artistas trabalham dentro de um contexto, com todas as oportunidades e restrições que esse contexto pode acarretar.

HISTÓRIA É INTERPRETAÇÃO

Há muito tempo atrás, nos envolvemos com uma discussão com alguém sobre história. Dissemos que “a história é em grande parte uma questão de interpretação”, ao que a outra pessoa respondeu algo como: “Definitivamente, não. A história não fala sobre fatos que realmente aconteceram?”

Essa ideia – de que a história trata de fatos, não de interpretação – parece especialmente pertinente na história da arte, uma vez que as obras de arte estão ali diante de nós, mesmo que o artista já tenha morrido há muito tempo. Mas, na realidade, a maneira como interagimos e entendemos a arte depende em grande parte de como a narrativa da história da arte foi produzida.

Existem inúmeras maneiras de explorar isso, mas vamos nos limitar a um exemplo bem conhecido. Não temos dúvidas de que você já ouviu falar sobre Renascimento.

Para descrevê-lo de forma simples, o Renascimento foi um período de tempo, centrado principalmente em torno da Itália, em que as artes floresceram sob uma concentração de patrocínio e estimuladas pela redescoberta de textos do mundo antigo de Roma e Grécia, cuja literatura, aprendizado e a política, eram admiradas como uma época de grandes realizações.

A era do Renascimento incluiu alguns dos artistas mais famosos da história, incluindo Leonardo da Vinci, Rafael e Michelangelo. Uma das principais fontes de detalhes históricos sobre os artistas dessa época vem de um livro chamado Lives of the Artists, uma série de biografias de artistas escritas por um pintor e arquiteto italiano do século 16 chamado Giorgio Vasari.

historia da arte Giorgio Vasari auto retrato
Giorgio Vasari’s ‘Self-portrait’ painted between 1550 and 1567. Source Wikimedia Commons

O livro é geralmente considerado o primeiro estudo da história da arte. É imensamente detalhado e permanece útil até hoje para historiadores de arte que buscam compreender o desenvolvimento da arte ocidental.

O problema com este livro é que Vasari estava escrevendo de uma posição extremamente partidária, uma vez que ele estava principalmente interessado em defender Florença e Roma como os próprios centros de excelência artística, sem quase nenhuma referência à arte que estava sendo feita fora da Itália.

Vasari usou uma estrutura de três partes no livro, uma estrutura correspondendo aproximadamente aos séculos 14, 15 e 16, para descrever como os artistas durante esses três períodos redescobriram progressivamente os padrões dos antigos gregos e romanos. Michelangelo é tratado como a expressão máxima da renovação, um artista que “triunfou sobre artistas antigos, artistas modernos e até mesmo sobre a própria Natureza”.

Assim, o projeto histórico de Vasari traça uma correspondência entre a passagem do tempo e a realização artística cada vez maior de artistas italianos. A marcha progressiva do progresso tem uma direção específica porque Vasari identifica um modelo para sua perfeição.

Hoje, o Renascimento é uma das pedras angulares da arte, que W. J. Bouwsma descreve como “a organização dramática tradicional da história ocidental”. Nesta organização, o Renascimento é um ponto de viragem histórico que encerra a Idade Média e inaugura a era moderna. É “o capítulo inaugural da história que leva até o nosso tempo”.

Em outras palavras, o efeito dos escritos de Vasari sobre seus conterrâneos foi o de ajudar a promover o Renascimento italiano à posição elevada de grande realização em toda a história da arte.

CONCLUSÕES

Descrevemos no início deste artigo nossa percepção de que a história da arte era como uma corrida de revezamento de artistas, cada um passando o bastão da criatividade de um para o outro.

Com este artigo esperamos ilustrar que é a Vasari que devemos agradecer, em última análise, por nossa imagem da história da arte como uma corrida de revezamento.

MAS A ARTE É SEMPRE SOBRE O PROGRESSO?

A ideia de progresso é muito atraente para os historiadores porque fornece uma estrutura de narrativa linear simples, a da história caminhando para um ponto culminante idealizado.

O principal problema dessa maneira de ver a história da arte é que ela tende a ser exclusiva, na medida em que assume a visão estreita de que a arte ocidental é a principal história da arte.

Onde, por exemplo, a arte budista poderia se encaixar na corrida de revezamento? E a arte islâmica, a turca, a japonesa ou a arte da África Ocidental?

A verdade é que muitas formas de arte ao redor do mundo se desenvolveram independentemente umas das outras ou com alguma sobreposição mínima.

Vasari era um italiano que vivia em Florença e, como tal, estava interessado em como a maravilhosa arte que o rodeava era feita. Isso é compreensível.

O que devemos fazer, entretanto, é lembrar que toda a história da arte tende a favorecer o contador de histórias. Isso é o que torna a História da Arte um tópico interessante para aprender. E por que, para onde quer que olhemos, sempre há mais para entender sobre a história da arte.

O que você achou? Tem algo a acrescentar sobre história da arte? Tem alguma dúvida específica? Fale com a gente aqui nos comentários!

Não deixe de nos visitar no Instagram @ocasaldafoto!

Um forte abraço do casal e até o próximo artigo!

Deixe um comentário